“Na vida há momentos difíceis, mas não podemos desistir.”
Ricardo Tadeu Marques da Fonseca, de 50 anos, é o único integrante do Ministério Público brasileiro portador de deficiência visual e, desde julho de 2009, é também o primeiro desembargador nessa condição.


Há 18 anos atuando no Ministério Público, Fonseca foi nomeado pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 9.ª Região.
Segundo ele, a dificuldade maior não é a falta de visão, mas o desconhecimento das pessoas em relação à deficiência. "Acham que a pessoa com deficiência não é capaz", opina.
Vítima de paralisia cerebral ao nascer, o que provocou a perda parcial da visão, Fonseca ficou totalmente cego aos 23 anos, quando cursava o terceiro ano de Direito na Universidade de São Paulo (USP). Formou-se com o apoio dos colegas, que gravavam o conteúdo dos livros e das aulas para que ele estudasse. Depois enfrentou preconceitos e dificuldades para conseguir o primeiro emprego.
O procurador chegou a ser reprovado em um concurso para juiz, mesmo tendo sido aprovado no exame escrito, em 1990, com a justificativa de que a Justiça não poderia aceitar uma pessoa cega. “O poder não estava pronto para uma pessoa cega naquela ocasião", afirma.
Em 1991, quando fez concurso para procurador do Trabalho, foi aprovado em 6.º lugar, numa prova disputada por 5 mil candidatos. Além disso, fez mestrado, doutorado, publicou dezenas de artigos acadêmicos e escreveu um livro, O trabalho da pessoa com deficiência e a lapidação dos direitos humanos.
O senhor é o primeiro desembargador cego no Brasil. Isso aumenta sua responsabilidade, já que serve de exemplo para outros deficientes visuais?
A responsabilidade de todos nós, juízes, já é, por si só, muito grande. O exemplo, claro, é importante e incentivador, mas essa é uma luta de todos nós. A mensagem que prevalece é: não acreditem nos limites que lhes impõem e lutem por seu sonho.

O senhor foi alfabetizado em braile? Ainda utiliza o sistema ou adotou totalmente o computador?
Não fui alfabetizado em braile, pois o volume dos livros jurídicos torna incompatível o sistema. Sempre me utilizei de ledores, e agora estou aprendendo informática. Já existem sistemas em teste que darão mais liberdade de trabalho à pessoa cega.
Como um professor, que não foi capacitado para isso, tratava um aluno cego em uma turma em que todos enxergavam?
Meus professores do primário foram fantásticos: escreviam em papéis de pão com letras bem grandes para eu enxergar. Isso partiu deles mesmos, numa época em que não se falava em inclusão. Foi uma experiência maravilhosa e que comprova que boa vontade e bom senso sempre ajudam e podem nos levar além do que se imagina.
O senhor estudou em um tempo em que o computador ainda não era utilizado nas escolas, e depois se formou em Direito e ainda estudou para concursos. Como foi essa época?
Nesse período utilizei-me de ledores, custeados por mim. As pessoas liam para mim e gravavam fitas.
O senhor foi discriminado por ser cego? Em algum momento pensou em desistir da carreira?
Certamente fui discriminado, mas não acreditei na impossibilidade a mim imposta. Na vida há momentos difíceis, mas não podemos desistir. Descansar sim, desistir nunca.
O fato de ser cego fez com que o senhor tivesse de estudar ainda mais para provar que tinha capacidade de exercer qualquer função dentro do Direito?
Estudo sempre é importante para se provar competências. Não sei se estudei mais pelo fato de ser cego. Estudei muito para ser o que sou hoje. Estudei de forma diferente, mas tanto quanto meus colegas.
Fazendo uma retrospectiva, quais foram as maiores dificuldades enfrentadas pelo senhor, tanto pessoal como profissionalmente?
Primeiro emprego no mercado foi um problema, passei por dificuldades familiares, financeiras. O instrumental de trabalho também sempre foi um problema, muitas vezes paguei os ledores às minhas expensas. Mas como, em razão de meu trabalho, fui nomeado assessor de um desembargador, os caminhos foram se suavizando, até possibilitar minhas atuais conquistas, degrau por degrau. O deficiente, no entanto, tem de fazer sua parte e um pouco mais para provar sua competência.
O que dizer para as crianças cegas, que enfrentam dificuldades para aprender, mas que sonham com um futuro profissional dentro de áreas como o Direito?
Não só no Direito, mas em qualquer área temos de lutar pelos nossos sonhos, mantê-los vivos dentro de nós e criar caminhos para que se realizem. Ninguém bate à sua porta para lhe dar oportunidade. É preciso criá-las. Fé em algo superior também é muito importante, independentemente da crença. Nós realmente podemos tudo!
O senhor se considera um exemplo?
Exemplos são todos os que lutam por uma vida mais digna, por seus direitos. Somos muitos em toda a sociedade.

Dr. Ricardo Tadeu Marques da Fonseca
Ricardo Tadeu Marques da Fonseca é doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná, especialista e mestre em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela Universidade de São Paulo. Ingressou no Ministério Público do Trabalho em 1991. Em julho de 2001, recebeu a Comenda de Honra ao Mérito, por indicação da população do Município de São Carlos (SP). Atuou na ONU para a redação da Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, norma que o Brasil ratificou em agosto de 2008. É autor de diversos artigos e do livro O trabalho da pessoa com deficiência e a lapidação dos direitos humanos.
Foto: Inara Vidal Passos
Fonte: Educacional.com.br
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