Por Isabela Pimentel

A proximidade dos grandes eventos esportivos que o Brasil sediará traz à tona uma preocupação constante de quem viaja: situação dos aeroportos brasileiros. O turismólogo Ricardo Shimosakai explica que, para entender a gravidade do problema, é preciso pensar

não apenas nos aeroportos, mas no complexo aeroportuário, que se refere à infra-estrutura física e do atendimento.

A falta de estrutura e de construções focadas em acessibilidade agravam ainda mais o problema, que, somando-se à falta de profissionais qualificados para atender pessoas com deficiência, pode gerar situações desagradáveis.

 

 

 

 

Novos passageiros à bordo

De acordo Shimosakai, que fundou a consultoria Turismo Adaptado, a acessibilidade deveria estar presente não apenas no espaço físico dos aeroportos, mas em toda a complexa estrutura que envolve o local. Restaurantes deveriam ter o cardápio em Braile, lojas deveriam ter espaço para circulação de cadeiras de rodas, entre outras facilidades.

- Apesar de a Infraero dizer que trata da acessibilidade em aeroportos de modo impecável, já vi muitas falhas nos diversos aeroportos que visitei, aponta.

Palco de encontros e despedidas, os aeroportos podem ser decisivos na construção da percepção do viajante que chega. Shimosakai alerta que, com cada vez mais pessoas viajando de avião, inclusive a classe C que já ocupa 48% dos assentos. E não apenas os turistas brasileiros estão viajando mais:

- O turista que vem do exterior, ou quem viaja para outros países, inevitavelmente comparam o atendimento oferecido e a estrutura disponível em alguns países, e o que temos aqui no Brasil. Dependendo da situação, a diferença é gritante, destaca.

Devido a esta situação, as reclamações são constantes, por exemplo, surdos estão na área de embarque e não encontram funcionários que se comuniquem na linguagem dos sinais e quando há troca do portão de embarque, comunicada por alto- falante, o viajante é prejudicado.

E os problemas não param por aí: faltam cadeiras motorizadas, cegos acompanhados de cão-guia enfrentam dificuldades para embarcar acompanhados com seu animal, direito (adquirido pela legislaçãol) além dos casos em que funcionários das companhias aéreas danificam as cadeiras de roda.

Confira abaixo a entrevista exclusiva que o turismólogo:

IP / CL: Como se pode denunciar estes problemas? Existe algum órgão do governo responsável?

Ricardo Shimosakai: Não há um órgão específico para denúncias de casos ocorridos em aeroportos, porém, quem se sentir prejudicado, pode fazer sua reclamação junto à companhia aérea ou órgãos que controlam esses locais, como Infraero e Anac. Também é possível entrar com uma ação no Juizado Especial Cível. Alguns aeroportos já possuem este juizado instalado no próprio local, para tentar resolver os problemas mais rapidamente. Ainda existem órgãos como Conselhos Municipais e Estaduais da Pessoa com Deficiência espalhados por todo o Brasil, além de um Conselho Nacional (Conade), e a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde). A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), também possui um departamento voltado a atender pessoas com deficiência. Porém, não há necessidade de se procurar algum órgão específico à Pessoa com Deficiência, pois tudo isso são questões de Direitos Humanos, que devem ser cumpridos por todos. O Procon também é uma alternativa. O procon de Alagoas, disse que cerca de 80% dos casos conseguem ser resolvidos na reunião de conciliação, porém este número varia em cada estado.

IP / CL: Nossa infra-estrutura está preparada, em termos de acessiblidade, para receber os grandes eventos esportivos?

Ricardo Shimosakai: No caso da Copa 2014 e Olimpíadas e Paraolimpíadas 2016, é necessário implantar a acessibilidade para pessoas com diferentes tipos de deficiência, não só nos espaços esportivos, mas também na infra-estrutura da cidade. Ainda não há um preparo adequado, e é visível a falta de profissionais qualificados, envolvidos no processo de adequação. Não que haja falta de profissionais competentes, mas estes não são convocados para aplicar seus conhecimentos. Uma questão clara de jogadas políticas e que fazem muito mal ao desenvolvimento brasileiro, seja qual for sua área.

Um exemplo claro, foi a situação que passei no maior aeroporto brasileiro, em Guarulhos. Ali não existem fingers, que são passarelas que ligam a área de embarque até a aeronave, suficientes para atender todos os embarques e desembarques. Só existem 2 ambulifts, que é uma espécie de carro com elevador. Em um desembarque, fiquei esperando mais de 1 hora até que o ambulift foi finalmente liberado, pois estavam ocupados atendendo outras 3 solicitações. Enquanto isso passei pela humilhação de ter que ficar na poltrona do avião enquanto a equipe de limpeza fazia seu trabalho, passando o aspirador ao meu lado, carregando lixo e outras coisas desagradáveis. Haviam liberado os passageiros que iriam tomar esse avião de volta ao seu ponto de origem, mas não permitiram que eles embarcassem enquanto eu não tivesse sido retirado, ou seja, ficaram um longo tempo expostos ao frio e vento no meio da pista. Então se um cadeirante provocou uma grande confusão, onde o prejudicado não foi somente eu, como será receber aeronaves que trarão times e delegações inteiras de atletas e visitantes com deficiência num evento como a Paraolimpíadas?

Um exemplo a seguir é Barcelona, que quando recebeu as Paraolimpíadas em 1992, fez uma grande reforma na cidade com um planejamento eficiente em acessibilidade. O importante é que todos estes recursos foram deixados para a cidade de forma permanente. O Brasil já sediou o Parapanamericano no Rio de Janeiro em 2007, porém a acessibilidade foi feita muito precariamente, e somente para atender as necessidades do evento, pois quando este acabou, todos esses recursos de acessibilidade foram retirados.

IP / CL: Nos atuais investimentos do governo, em infra-estrutura, há previsão de verbas para obras acessíveis?

Ricardo Shimosakai: Geralmente a acessibilidade é pensada como uma forma de se resolver um problema, em algo que já existe e que apresenta uma falha. Isto é correto, porém é preciso que em todas as iniciativas, a acessibilidade e inclusão seja um item de seu planejamento inicial. Construir um hotel, teatro, museu ou qualquer outra estrutura, deve seguir as normas de acessibilidade em seu projeto, porém isso não acontece na prática. Então o desafio é pensar em fazer algo que atenda a todos, e não consertar os problemas de acessibilidade, e se isso realmente fosse cumprido, já estaríamos com um avanço significativo. Existem sim verbas para as questões de acessibilidade, porém novamente reforço, que elas são mal aplicadas, por questões políticas e que não são administradas por pessoas qualificadas.

Apesar disso, existe o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, que prevê investimentos federais de R$ 7,6 bilhões até 2014 para ações de educação, saúde, inclusão social e acessibilidade. Governo lança Viver sem Limite – Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência

Porém reforçando, que esta iniciativa é muito boa, mas é preciso que haja pessoas competentes para dar a direção correta para o destino dessa verba, e decidir quais as melhores ações a serem aplicadas.

Fonte: Clínica Literária